sexta-feira, 23 de outubro de 2009

"Lê-lê, lê-lê, lê-lê, lê-lê, lê-lê... Vida de negro é difícil, é difícil como quê!"

"Lê Lê Lê Lê Lê Lê Lê Lê Lê Lê Lê Lê Lê Lê Lê Lê Lê Lê Lê
Vida de negro é difícil, é difícil como o quê
Vida de negro é difícil, é difícil como o quê
Eu quero morrer de noite na tocaia a me matar
Eu quero morrer de açoitese tu, negra, me deixar
Vida de negro é difícil é difícil como o quê
Vida de negro é difícil, é difícil como o quê
Meu amor, eu vou me embora nessa terra vou morrer
Um dia não vou mais ver nunca mais eu vou viver
Vida de negro é difícil, é difícil como o quê
Vida de negro é difícil, é difícil como o quê
Lê Lê Lê Lê Lê Lê Lê Lê Lê Lê Lê Lê Lê Lê Lê Lê Lê Lê Lê"


"Vida de Negro"
Dorival Caymmi
Trilha sonora da novela "Escrava Isaura"






Definitivamente, essa é a música tema da Enfermagem. E fico espantada como tenho colegas que parecem não enxergar isso.
Ontem fui até uma escola técnica para buscar um programa de disciplina que me convidaram para ministrar. Chegando lá, encontro dois colegas que estudaram comigo no curso superior. Um deles, que batizarei aqui de, "Quebra-queixo", passou por uma situação que me fez pensar e repensar determinadas posturas e comportamentos.
Pois bem, desde a graduação, "Quebra-queixo" sempre foi ultra debochado... E., claro, sempre me diverti com ele. Ontem, apesar dos poucos minutos de contato, percebi que não modificou essa peculiar característica... Aliás, penso até que ela foi reforçada.
Enquanto aguardava para conversar com a senhorita "Lady Gaga", percebi um pequeno tumulto.. parecia que os alunos de uma turma estavam se rebelando... E "Lady Gaga", saiu imediatamente em busca de meios para controlar os danos...
Estava a observar aquilo, quando percebi que as funcionárias estavam se divertindo com a senhorita "Lady Gaga" em polvorosa. Quando, ela chegou até a porta da sala e pediu para que "Quebra- queixo" a acompanhasse e que a funcionária procurasse a caderneta da turma. A professora não apareceu para dar aula e a turma tinha mesmo se rebelado!
Pois bem, quando voltou, "Quebra-queixo", fazendo lá a cara dele de 'pouco caso', e se perguntando como iria dar uma aula sem ter se preparado (o que não deixa de ser muito complicado), se espreguiçava enquanto a funcionária procurava a caderneta para entregar a ele. Nisso, ele solta uma pérola...
"Ai, ai... O Pelourinho foi erguido às custas de muita chicotada... Meus antepassados todos levaram muitas chicotadas, filha... Agora chegou minha vez de descansar!"
Na hora, mal contive o riso... A espontaneidade foi tamanha e o ar da graça da frase foi excepcional. No entanto, questão de um minuto e meio, "Lady Gaga" surge e 'carinhosamente' fala pra a funcionária entregar logo a caderneta e completa dizendo:
"Não agüento com tanta lesma!"
O clima ficou pesado... pelo menos ao meu ver... e lá foi "Quebra-queixo", encarar a turma de rebelados...
"Lady Gaga" adentrou o recinto tal qual um carro de bombeiros pra atender uma chamada... e logo veio tratar comigo. Instantes depois, "Quebra-queixo" surge na porta e questiona a "Lady Gaga":
"É pra assumir a turma, é?"
Foi a conta d'água... "Lady Gaga" virou-se e aos berros no mais alto, e certamente em um som não tom bom, gritou a plenos pulmões:
"É pra assumir, sim! Agora saia da minha frente e não saia mais daquela sala de jeito nenhum!Não saia mais da sala!"
Ao ver essa explosão, confesso que fiquei preocupada... foi muito desrespeitoso, ao meu ver, o tratamento que ambas as partes deram a questão.
Em seguida, "Lady Gaga" deve ter observado alguma expressão que não consegui disfarçar e logo me pediu desculpas.
Pois bem, saí de lá e a única coisa que me veio à cabeça foi a seguinte:
Bobagem nossa pensar que a escravidão foi extinta... Em verdade, foi ela substituída por mecanismos mais eficazes de controle e não mais existe uma seleção de 'cor' para seu exercício. Essa suposta 'liberdade' que imaginamos ter não passa de uma distração, para deixarmos de notar que ainda se dá muita 'chibatada' por aí, tal qual recebeu meu caro colega, "Quebra-queixo", quando atreveu-se sair da sala para saber se assumiria ou não a turma rebelde...
Pobre rapaz!


2 comentários:

Anônimo disse...

Gostei da estorinha. :-)

Rodrigo

Nadja Pereira disse...

Bem bacana a sua história. Ao mesmo tempo, acredito que quem luta pra ser mediano, acaba ganhando um trabalho de acordo com o seu talento. Por conseguinte, sendo explorado.

Beijo gata.